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domingo, 8 de setembro de 2013

domingo, 1 de setembro de 2013

Cárcere privado




Vontade de rua, de lua, de mar.
Vontade de correr, cantar, dançar.
Vontade de sair, fugir, viajar.
Mas, como sou covarde (e me escondo sob a capa das "responsabilidades"), o jeito é ficar.
E assim eu fico, e sendo não sou.

sábado, 20 de agosto de 2011

Papo de leitora



A menina chegou da escola esbaforida. Jogou a mochila no chão e logo entabulou uma conversa com a irmã:

- Tenho uma boa e uma má notícia.

- Hum?

- Já li os textos do livro de português quase todos.

- Essa é a boa ou a má notícia?

- Nem uma coisa, nem outra.

- Hã?

- A boa notícia é que eu gostei dos textos.

- Que bom! Tem algum da Ruth?

- Não. Não tem nenhum dela, mas eu descobri autores novos. E fiquei com muita vontade de conhecer os livros de onde as histórias saíram.

- É uma boa notícia mesmo... E qual é a má?

- Fui visitar a biblioteca da escola.

- E por que isso é uma má notícia?

A menina respondeu tristonha:

- Porque a biblioteca não é uma biblioteca. Tem uma placa na porta da sala, mas lá dentro só tem cadeiras; nenhum livro.

- Que triste...

- É... Eu não entendo... Se os textos do livro de português deixam a gente com vontade de conhecer as histórias até o fim, os livros com essas histórias completas não deveriam estar na biblioteca da escola, para a gente ler?


...para uma pequena grande leitora ;-)

sábado, 7 de maio de 2011

No museu

Visitando dois museus de uma capital aqui do Brasil, tive vontade de conversar com os seguranças que trabalhavam neles. Em um deles, conversei com um senhor que ali trabalhava há mais de dez anos e com um rapaz mais novo, que estava neste emprego há alguns meses. Dentre outras coisas, na simpática prosa que engatei com um de cada vez, perguntei-lhes o que achavam de trabalhar ali. O primeiro respondeu que era um privilégio estar perto de obras tão importantes e começou a falar-me sobre sua preferência pelos quadros de Renoir. O segundo disse que era muito bom ver de perto obras sobre as quais ouviu falar na escola e que estar ali era uma aula de história. Citou um dos quadros, dizendo que tinha visto sua imagem em um livro de literatura no Ensino Médio. No outro museu, também conversei com duas pessoas, um rapaz e uma moça. Ela estava ali há dois anos e ele há alguns meses. Ao fazer a mesma pergunta do museu anterior, a reposta de ambos, um por vez, selou as conversas num “É legal”.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Acordou com vontade de mar.
Não era vontade de praia, era vontade de mar, que são coisas bem diferentes.
Queria o calor morno da areia, uma sombra, o silêncio do mundo e o canto das ondas quebrando.
Queria a imensidão do vazio, a ausência de todos, a presença de si mesma... e todo tempo do mundo para ficar assim...



domingo, 24 de outubro de 2010

Sem fio

Quarta-feira à noite. Salvos da prova por um triz. A notícia de que o professor não viria dar aula foi um verdadeiro presente dos deuses, e digno de comemoração.
Decidiram comemorar tomando chopp em um barzinho perto da faculdade. Na mesa, casados, solteiros e enrolados bebiam e riam. E entre uma besteira e outra, ela viu aquela verdadeira aparição entrar no bar com uma mochila nas costas. Pele bronzeada, cabelos grisalhos, jeans e camiseta. Pinta de George Clooney com charme de Richard Gere. Perfeito!
Ela, apesar de fedelha, tinha uma queda por homens maduros.
Ouvidos na conversa da mesa, olhos atentos ao movimento da aparição.
Ele sentou-se em uma mesa num canto mais reservado e cumprimentou o garçom que, minutos depois, voltou com uma garrafa de vinho. Ele parecia tranquilo, e não dava sinais de estar esperando alguém. Abriu a mochila, pegou um notebook, pôs sobre a mesa e em seguida conectou um modem de internet móvel.
Ela maquinava uma forma de chamar-lhe à atenção, de se aproximar, de puxar conversa. Ele estava com o rosto iluminado pelo brilho da tela do computador. Ela continuava maquinando e olhando...
Repentinamente, ele esboça um sorriso.
Sorriso para ela? Não, para a tela!
Ele sorria, escrevia, gesticulava; gesticulava, escrevia, sorria. E ela? Ela nada entendia e não acreditava no via: agora era um brinde!! Só faltou dizer saúde (ou será que ele escreveu?) Brindar com a tela do computador??? Como assim??? "Ei, olá, tem gente aqui, óóó!! Ao vivo e a cores!!!" era o que ela tinha vontade de dizer.
Nocauteada por um computador, e ela não teve a menor chance. Nem sequer um olhar foi trocado.
E o que mais a intrigava era aquele sorriso de orelha a orelha que ele tinha no rosto. Era o fim!
Além de ter uma queda por homens mais velhos, ela também era muito curiosa. Qual era o motivo daquele sorriso? Quem recebeu aquele brinde? Era uma questão de honra saber.
Ela levantou-se e foi em direção ao banheiro, por sorte, poderia passar perto da mesa e olhar pelas costas dele o que tanto fazia no computador...
Janela de um mesageiro instantâneo aberta, webcam ligada, uma chamada de vídeo e uma mulher  com uma taça do outro lado da tela (quem sabe do outro lado do mundo!!!!).
Só restava beijar a lona. 
Um homem com um notebook em um bar e isolado do seu entorno, imune a todos os olhares e sorrisos.  Era melhor que ficasse em casa!!! E depois ainda dizem que a tecnologia aproxima as pessoas!!! Aproxima quem?? Conversa pra boi dormir.
Maldita internet móvel, maldita wireless, maldito mensageiro instantâneo, maldita webcam!!!
Golpe certeiro.
... e nas muitas tramas do tecido da vida, ela foi nocauteada por uma rede sem fio...


domingo, 26 de setembro de 2010

Vou parar de ler!

Decididamente, vou parar de ler!
Isso é uma praga, é pior do que saúva em plantação de mandioca, é pior do que bactéria em ferida, é pior do que corrente cirulando por e-mails, pior do que piolho em cabeça de criança na escola.
Toda vez que leio, me dá uma votade de ler mais!!
Com a leitura não existe essa história de matar a fome; quanto mais se come, mais se quer. E se não bastasse a minha lista interminável de livros que tenho vontade de ler, ainda me vêm as personagens de alguns romances falando com paixão de obras maravilhosas, de um autor isso, de um poeta aquilo, o que só faz aumentar a minha lista que não pára de crescer...
Aviso, se você não quer se viciar, evite o primeiro livro.
Antonio Frederico! A culpa é toda sua, sua e do seu laço de fita... ô poetazinho sedutor você, hein?
... mas à medida que escrevo essas linhas, fico pensando em como seria a minha vida sem a leitura...
Ai! não seria... o jeito é continuar trabalhando para comprar livro e, ao invés de saciar, aumentar o apetite, a fatura do cartão de crédito e o rombo na conta bancária...
Hum! Alguém poderá argumentar "mas existem páginas, como o Dominio Público, que disponibilizam muitos livros maravilhosos gratuitamente". Isso significa que posso economizar lendo na tela.
Sim, até certo ponto, isso é verdade. Entretanto, não resolve o meu problema.
No trânsito cada vez pior de Salvador, não posso imaginar sair de casa sem um bom livro de bolso na bolsa, a não ser que queira morrer de tédio. Então, preciso ter livros para levar comigo.
E o que fazer com os livros que baixei ontem lá no Domínio Público?
Socorro!!!
A minha dose de leitura diária só aumenta: na rua, o livro de bolso na bolsa (comprado); em casa, o livro digital na tela do computador (de grátis), a leitura antes de dormir... estou arruinada... não tem jeito... uma vida só é muito pouco...
E eis que um pop-up acaba de saltar aos meus olhos: promoção de livros com frete grátis!!! Não posso perder...
Viu, Antonio Frederico?! A culpa é sua, toda sua (e, a propósito, seus textos também estão lá no Domínio Público viu?!)!!!

terça-feira, 20 de julho de 2010

O que é arte?

Outro dia, estava eu andando por um dos maiores e mais movimentados shoppings da cidade - com muita pressa, só pra variar - quando ouvi ao longe um som de saxofone. Boa música, bem tocada. Agucei os ouvidos para descobrir de onde vinha a música e fui até ela.
Um pequeno tablado, um homem, um saxofone e dezanas de pessoas ao redor. Eu ouvia a música. Eu olhava as pessoas; mirava suas expressões, silêncios, cochichos. Gente com sacola, gente com livros, gente com jaleco pendurado no ombro, gente com mochila, gente com carrinho de bebê, gente na cadeira de rodas, gente observando.
Fiquei pensando sobre a arte.
Acho que arte é essa coisa que faz dezenas de pessoas interromperem o fluxo acelerado do cotidiano e pararem no meio do shopping para ouvir música. Acho que é essa coisa que faz dezenas de pessoas estamparem no rosto um jeito de... um jeito de... ah! não sei jeito de quê, mas é tão bom...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Aulas de ortografia para computador

Quem nunca vivenciou as dores e delícias da ferramenta de auto-correção dos editores de texto?
Que maravilha quando - na pressa, na ignorância ou na dúvida - aquela palavrinha grafada erradamente aparece sublinhada de vermelho e me permite retificar as imperfeições em meus escritos!!!
Que pesadelo quando, sem ser convidado, o recurso de auto-correção quer se intrometer entre o sujeito e o predicado da minha oração!!
Ultimamente, tenho sofrido muito, muito mesmo, por causa do Novo Acordo Ortográfico entre os países de Língua Portuguesa (que já não é nem mais tão novo assim... mas confesso que demorei de concluir esse post por pura preguiça, rsrs). Pois bem, essa tal ferramenta insiste em colocar acento nas minhas ideias, assembleias, odisseias e estreias; em apartar minha antessala, meu antirreflexo e meu antirruído e, ainda por cima, quer trema na linguiça!!!
Procuro um professor de ortografia para computadores. Quem souber de algum, favor deixar recado aqui no blog. Desde já, agradeço.

Hum... surgiu uma dúvida: alguém aí sabe se auto-correção agora é junto ou separado?
Vou ali na página vizinha olhar o acordo e volto já...

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sim, é tempo de Copa!

Ao contrários dos anteriores, esse ano demorei para entrar em clima de copa. A ficha caiu há poucos dias, mais precisamente, na véspera da cerimônia de abertura. Uma história em três turnos.

Manhã: recebi o e-mail de uma pessoa querida com o link para o clipe da música oficial da copa "Waka, Waka - This Time For Africa". Adorei o clipe. A música é contagiante, o colorido é muito bonito, as cenas selecionadas foram bilhetes para pequenas viagens em minhas memórias de copas do mundo. Sem falar que gosto muito de Shakira. Todas aquelas pessoas - adultos, crianças, homens, mulheres, de etnias diferentes, costumes diferentes - ligadas pelo futebol. Não posso precisar o que senti, mas foi algo tão bom..."Sim, é tempo de Copa".

Tarde: saí de casa rumo ao centro da cidade. No ônibus, circulando pelas ruas do bairro, vi várias ruas enfeitadas; entre um poste e outro, filas e mais filas de bandeirodas verdes e amarelas. Mais adiante, algumas pessoas trabalhando juntas: um homem sobre um escada atava a cordinha com bandeirolas na grade de um sobrado, do lado oposto rua, em outra escada, um rapazinho aguardava a conclusão da tarefa do primeiro para receber a ponta restante e prender em um poste; na calçada, algumas mulheres montavam as cordinhas, auxiliadas por crianças que corriam de um lado a outro agitando as bandeirolas. "Sim, é tempo de Copa".

Noite: chego em casa, e antes de descer do ônibus vi o lustre canarinho tomando metade da rua. Aqui o trabalho também estava em andamento. Sigo em direção à minha casa, e vejo que lá é o centro de operações: minha mãe, meus irmãos e alguns vizinhos granpeando bandeirolas, e outros dois colocando nos postes. Há muito tempo não via os vizinhos reunidos assim, ou talvez nunca tenha visto antes; de qualquer modo, me agradava a cena. Pessoas que apenas se cumprimentavam com um cordial "Bom dia", quando muito, convidavam para as festinhas de aniversário das crianças, ali, juntas, trabalhando para deixar a rua "no clima". Fora minha mãe quem capitaneara: saiu de porta em porta conclamando os vizinhos, organizou a "vaquinha" e distribuiu as tarefas. "Sim, é tempo de Copa!".

Essas três cenas fizeram-me recordar o motivo pelo qual, além do futebol, é claro, eu gosto tanto das Copas: o sentimento de união e proximidade que parece tomar conta do mundo...


quarta-feira, 15 de julho de 2009

O bunner

O pôr-do-sol indicava o fim de mais uma jornadada de trabalho. Hora de ir para casa.
Ela estava no ponto de ônibus com o seu companheiro inseparável daquele dia: o bunner. Não era pesado, mas um volume bastante incômodo de transportar, principalmente para quem estava apinhada de livros.

Ficou feliz ao avistar, ao longe, o seu ônibus. Quando ele chegou mais perto, sua felicidade tornou-se dupla; apesar do horário, estava vazio. Passou pelo torniquete e sentou-se.
Em suas mãos, entre os livros que carregava, havia um em especial que estava roubando-lhe atenção desde o dia anterior. Para retomar a sua leitura, era necessário desocupar as mãos, ou seja, acomodar o bunner.

Pelo vidro da janela, percebeu que alguém dentro do ônibus a observava. Era um rapaz. Era bonito. Felicidade tripla. Talvez a produção do dia estivesse dando resultado, e ela iria colher os louros (era um dia daqueles nos quais ela acordara bem disposta e decidida a sair de casa bonita; escolheu roupa e acessários meticulosamente, caprichou na maquiagem. Precisava alimentar o seu ego com alguns olhares e elogios do sexo oposto).

Sim, o bunner. Primeiro tentou acomodá-lo na fenda entre as cadeiras, mas, na primeira parada do ônibus... lá se foi o bunner, deslizando suave entre as fendas e escapando para o chão. O rapaz continuava olhando. Ela acompanhava pelo reflexo na janela.

Segunda tentativa: colocar o bunner deitado no colo. Seria perfeito, se o bunner não fosse comprido de mais a ponto de alcançar o corredor... O rapaz ainda olhava. Ela, ainda acompanhando pelo reflexo, estava meio lisonjeada e meio sem graça. Ele tinha dois livros grossos no colo, uma pasta preta sobre o banco e um livro mais fino nas mãos. Parecia estar estudando. E ela queria ler também.

Mais uma tentativa: acomodar o bunner na fenda entre o canto e a cadeira... Nada feito! Muito estreito... Ela olhava para o livro... mas o bunner...

Resolveu colocá-lo entre as pernas. Como não havia pensado nisso antes?! Agora sim poderia ler. Um parágrafo, uma página, outra página... relaxou... esqueceu-se do bunner... relaxou as pernas... bunner na cabeça!!

Trágico ou cômico? O rapaz ao lado observava tudo. Ela aproveitou a oportunidade para estabelecer algum contato. Olhou para ele e deu o seu melhor sorriso...

Ele arregalou os olhos e não moveu mais nenhum músculo da face. Abaixou a cabeça e retornou à leitura com uma concentração desconcertante. Tão desconcertante que ela ficou desconcertada. E ele não olhou mais.

Ela desistiu do livro. Abriu a bolsa e pegou o ipod. Fone no ouvido, livros no colo e ele, o bunner, confortavelmente acomodado, tendo para si o cuidado das duas mãos que lhe serviram o dia todo.

domingo, 19 de outubro de 2008

Banho de vento

Ela estava chateada. Andando com pressa. Pisando duro. Irritada. Ele sabia que isso a aborrecia muito... Aquele riso deliciosamente maldoso no canto da boca... Parecia ser proposital. Ela continuava caminhando. O rosto fechado. A expressão zangada. Para que insistir naquilo?

O tempo prometia chuva.

Rua deserta. Tempo nublado. Apenas os carros passavam extravasando as potências contidas pelos engarrafamentos de segunda à sexta. “Hoje é domingo - lembrou-se”.

Ainda estava longe, quando viu que o semáforo acabara de fechar. Não daria tempo. Uma longa espera até ele fechar de novo. Na rua deserta, pairava um leve clima de solidão e medo.

Sentiu o ar mais úmido. E o ar úmido pôs-se em movimento, chacoalhando as folhas dos arbustos ao longo da avenida. Não sentiu frio. Um arrepio gostoso percorreu-lhe o corpo.

O balanço do vento arrebatou dos arbustos algumas folhas meio secas, ansiosas por voar. E ela viu-se submersa, mergulhada nas minúsculas folhas que envolviam seu corpo, que roçavam seu rosto... Que encantavam seus olhos, brincando de rodopio com o vento, bailando no ar. E o vento quis trazer também consigo delicadas gotículas de chuva...

Estava totalmente envolvida, entre folhas, gotículas e vento... Que vontade de abrir os braços e voar! Que vontade de abrir os braços e sorrir! Quanto receio de parecer louca! Aos pouquinhos, a vontade de ser trespassada pelo vento foi vencendo o pudor de parecer louca, e ela, bem devagarzinho, abriu os braços e sorriu...

Lamentou a calça jeans. Desejou um vestido leve e solto que lhe permitisse sentir o frescor do vento em suas pernas. Agradeceu ao tempo por lhe ter dado um presente de outono em pleno verão.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Ônibus, celular e idéias

Para mim, o transporte coletivo é um meio muito fecundo. Acho que as melhores idéias que já tive foram a bordo de um ônibus: o mote ou o verso para começar um poema, a idéia-chave para a conclusão de um artigo, a compreensão de um conceito que parecia incompreensível...

Ao despontar uma idéia, procurava desesperadamente papel e caneta em minha bolsa para virtualizar minha memória – era um desespero frenético, pois as minhas idéias são muito fugazes; quando menos se espera elas batem asas e vão embora. Quem acompanhava a cena certamente imaginava-me louca. Principalmente ao observar as minhas incansáveis tentativas de escrever em com o veículo em movimento. Saía cada garrancho! Em pensamento eu desejava: “tomara que feche o sinal”, “tomara que alguém peça o ponto”. Ás vezes, entre a busca do papel e da caneta, uma parte da idéia era perdida, ou então eu mesma não conseguia decifrar os garranchos. Ô aperreio! Porém, penso eu, acho que agora encontrei uma forma de lidar com essas idéias danadinhas...

Há pouco tempo, comprei um telefone celular novo. Das muitas diferenças entre o meu aparelho anterior e o atual, esta é a melhor: a possibilidade de criar notas com até 3.000 caracteres! Isso corresponde a mais da metade – 80% – de uma página tamanho A4, escrita em fonte 12, e eu posso criar mais de 10 notas. No fim das contas, dá para escrever umas oito páginas.

Que maravilha o celular! Posso registrar os meus devaneios, uma idéia que não quero ver perdida, com a maior facilidade, sem ser notada por ninguém. O movimento do ônibus não interfere mais, na verdade ele nem é percebido, e, quando eu nem vejo, já cheguei ao meu destino, carregada de textos em meu bolso. Antes, na luta com a caneta e o papel, eu registrava um verso, tópicos, pontos importantes para serem desenvolvidos em momento oportuno. Agora eu escrevo parágrafos, estrofes, poemas completos. Por que é que eu não havia pensado nisso antes? Quantas idéias não teriam escapulido? Quantos versos registrados?

Ultimamente tenho pensado bastante, e trabalhado também, para comprar um carro – sair de casa mais tarde, chegar mais cedo –; aproveitar mais o meu tempo de estudo. Acho que vou desistir da idéia... Com um celular meio “note-book” e uns livros, o ônibus pode ser um local de estudo. Até o engarrafamento diário será menos entediante.

Para os meus companheiros de idéias fugidias, deixo uma dica: use o celular. Se a idéia for muito grande, como é o caso desse texto, que foi escrito enquanto eu me deslocava para o trabalho, os dedos irão doer um pouco. Mas o que é uma dorzinha na ponta dos dedos ante a felicidade de uma idéia?

Mas nem tudo são flores... Para não dizer que não falei dos espinhos1, pensemos em nossas cidades tão violentas. Há um grande risco de o celular ser roubado por algum ladrão observador da minha peripécia. Dói imaginar: eu descendo do ônibus, sendo abordada e... Ô aperreio! Depois de tanto trabalho para não deixar as idéias escapar, vê-las ser levadas por alguém que, provavelmente, não vai aproveitá-las; fugindo presas no bolso do larápio.

1 Em alusão à música de Geraldo Vandré.