
Tudo na vida é uma questão de vontade.
O resto é desculpa.
E ponto.


o e, ainda por cima, quer trema na linguiça!!!
Ao contrários dos anteriores, esse ano demorei para entrar em clima de copa. A ficha caiu há poucos dias, mais precisamente, na véspera da cerimônia de abertura. Uma história em três turnos.Ela estava chateada. Andando com pressa. Pisando duro. Irritada. Ele sabia que isso a aborrecia muito... Aquele riso deliciosamente maldoso no canto da boca... Parecia ser proposital. Ela continuava caminhando. O rosto fechado. A expressão zangada. Para que insistir naquilo?
O tempo prometia chuva.
Rua deserta. Tempo nublado. Apenas os carros passavam extravasando as potências contidas pelos engarrafamentos de segunda à sexta. “Hoje é domingo - lembrou-se”.
Ainda estava longe, quando viu que o semáforo acabara de fechar. Não daria tempo. Uma longa espera até ele fechar de novo. Na rua deserta, pairava um leve clima de solidão e medo.
Sentiu o ar mais úmido. E o ar úmido pôs-se em movimento, chacoalhando as folhas dos arbustos ao longo da avenida. Não sentiu frio. Um arrepio gostoso percorreu-lhe o corpo.
O balanço do vento arrebatou dos arbustos algumas folhas meio secas, ansiosas por voar. E ela viu-se submersa, mergulhada nas minúsculas folhas que envolviam seu corpo, que roçavam seu rosto... Que encantavam seus olhos, brincando de rodopio com o vento, bailando no ar. E o vento quis trazer também consigo delicadas gotículas de chuva...
Estava totalmente envolvida, entre folhas, gotículas e vento... Que vontade de abrir os braços e voar! Que vontade de abrir os braços e sorrir! Quanto receio de parecer louca! Aos pouquinhos, a vontade de ser trespassada pelo vento foi vencendo o pudor de parecer louca, e ela, bem devagarzinho, abriu os braços e sorriu...
Lamentou a calça jeans. Desejou um vestido leve e solto que lhe permitisse sentir o frescor do vento em suas pernas. Agradeceu ao tempo por lhe ter dado um presente de outono em pleno verão.
Para mim, o transporte coletivo é um meio muito fecundo. Acho que as melhores idéias que já tive foram a bordo de um ônibus: o mote ou o verso para começar um poema, a idéia-chave para a conclusão de um artigo, a compreensão de um conceito que parecia incompreensível...
Ao despontar uma idéia, procurava desesperadamente papel e caneta em minha bolsa para virtualizar minha memória – era um desespero frenético, pois as minhas idéias são muito fugazes; quando menos se espera elas batem asas e vão embora. Quem acompanhava a cena certamente imaginava-me louca. Principalmente ao observar as minhas incansáveis tentativas de escrever em com o veículo em movimento. Saía cada garrancho! Em pensamento eu desejava: “tomara que feche o sinal”, “tomara que alguém peça o ponto”. Ás vezes, entre a busca do papel e da caneta, uma parte da idéia era perdida, ou então eu mesma não conseguia decifrar os garranchos. Ô aperreio! Porém, penso eu, acho que agora encontrei uma forma de lidar com essas idéias danadinhas...
Há pouco tempo, comprei um telefone celular novo. Das muitas diferenças entre o meu aparelho anterior e o atual, esta é a melhor: a possibilidade de criar notas com até 3.000 caracteres! Isso corresponde a mais da metade – 80% – de uma página tamanho A4, escrita em fonte 12, e eu posso criar mais de 10 notas. No fim das contas, dá para escrever umas oito páginas.
Que maravilha o celular! Posso registrar os meus devaneios, uma idéia que não quero ver perdida, com a maior facilidade, sem ser notada por ninguém. O movimento do ônibus não interfere mais, na verdade ele nem é percebido, e, quando eu nem vejo, já cheguei ao meu destino, carregada de textos em meu bolso. Antes, na luta com a caneta e o papel, eu registrava um verso, tópicos, pontos importantes para serem desenvolvidos em momento oportuno. Agora eu escrevo parágrafos, estrofes, poemas completos. Por que é que eu não havia pensado nisso antes? Quantas idéias não teriam escapulido? Quantos versos registrados?
Ultimamente tenho pensado bastante, e trabalhado também, para comprar um carro – sair de casa mais tarde, chegar mais cedo –; aproveitar mais o meu tempo de estudo. Acho que vou desistir da idéia... Com um celular meio “note-book” e uns livros, o ônibus pode ser um local de estudo. Até o engarrafamento diário será menos entediante.
Para os meus companheiros de idéias fugidias, deixo uma dica: use o celular. Se a idéia for muito grande, como é o caso desse texto, que foi escrito enquanto eu me deslocava para o trabalho, os dedos irão doer um pouco. Mas o que é uma dorzinha na ponta dos dedos ante a felicidade de uma idéia?
Mas nem tudo são flores... Para não dizer que não falei dos espinhos1, pensemos em nossas cidades tão violentas. Há um grande risco de o celular ser roubado por algum ladrão observador da minha peripécia. Dói imaginar: eu descendo do ônibus, sendo abordada e... Ô aperreio! Depois de tanto trabalho para não deixar as idéias escapar, vê-las ser levadas por alguém que, provavelmente, não vai aproveitá-las; fugindo presas no bolso do larápio.
1 Em alusão à música de Geraldo Vandré.