sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O médico e o monstro



Até bem pouco tempo atrás, para mim, O médico e o monstro se referia apenas ao texto de Paulo Mendes Campos, que li quando criança. Naquela tenra idade, nunca tinha ouvido falar Robert Louis Stevenson, nem imaginava a intertextualidade existente entre a novela do escocês e a crônica do brasileiro.
O texto de Campos é uma boa lembrança em minhas memória de escola (ou, melhor, todo aquele volume da coleção Para gostar ler), e se antes já gostava dele, agora gosto mais ainda. Mas, vamos ao texto de Stevenson.
Um excelente estilo narrativo, um mistério envolvente, um suspense crescente, segredos guardados em evelopes lacrados, a medida certa para aguçar a curiosidade.
Dr. Henry Jekyll, médico conhecido e respeitado por suas virtudes, morais e profissionais, na Londres do século XIX. Edward Hyde, sujeito apavorante, presença aterrorizante, a ausência de tudo que é considerado virtuoso; uma aparição do demônio. Dois seres totalmente diferentes, física e psicologicamente. E uma ligação misteriosa ente os dois, o virtuoso e o outro desprezível. E é essa ligação que inquieta e intriga o Sr. Utterson, advogado e amigo de Jekyll.
Acompanhando Utterson, o leitor se emaranha na trama dessa obra meio fantástica, meio ficção científica. E, cada vez mais, as inquietações do advogado passam a ser suas: o que se passa ente Jekyll e Hyde? Quem é Hyde? Junto com Utterson, descobrimos que Hyde é Jekyll, e que Jekyll é Hyde. Não são dois, mas um só, uma pessoa só.
Movido pelo desejo de experimentar coisas que a sua vida regida pela moral e pelos bons costumes – civilizadinha, certinha, castinha, boazinha – não permitia, o Dr. Jekyll criou uma poção que libertava o seu lado animalesco e perverso, e o transfigurava em um outro eu diametralmente oposto: Hyde, que fazia tudo aquilo que Jekyll não se permitia.
É a história do ser humano que quer ser civilizado, mas se atormenta com o seu lado animalesco reprimido em nome dessa mesma civilidade desejada. É a culpa e o senso de responsabilidade – aprendidos, diga-se de passagem – lutando com o desejo de experimentar uma vida de prazeres intensos, livres de restrições e convenções, do ódio sem culpa, de desejos violentos. A tal poção não criava nada novo, só colocava para fora aquilo que já existia em Jekyll, aquilo que era Jekyll: Hyde (e algum leitor de Freud vai dizer: Id e Super Ego! O duelo psíquico da teoria freudiana) 

Como diria Nietzsche, humano, demasiado humano…



P.S. Não considero uma boa idéia lê-lo antes de dormir. Se começar, estará correndo o grande risco de trocar suas horas de sono por uma envolvente e sedutora leitura, que você só vai querer largar no fim...

3 comentários:

Erica Vittorazzi disse...

Amo leituras assim: que me roubam o sono!!!!


Ps: as drogas também fazem isto: Só colocam para fora, aquilo que a pessoa já é.


Beijos

Raquel S. Ramos disse...

Acho interessantíssima a história d'O Medico e o monstro, mas nunca li na íntegra :( tenho que ler.
Muito bom seu texto parabéns.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

são dois bons encontros literários