domingo, 21 de novembro de 2010

(De)vagar


Toc, toc, toc, toc. Era o que ouvia ao sentir o impacto do salto do sapato contra a dureza da calçada de concreto no seu passo rotineiro e apressado.
Uma fenda mínima na passarela de concreto atravancou o seu passo, descompassou o compasso. Com o susto de quase ir ao chão, ela parou. O coração acelerou. Respirou fundo.
Naquela manhã de sol ameno, o vento roçava as folhas das árvores do outro lado da calçada. Entre uma e outra, um matiz de luz e sombra. Na linha do horizonte, entendeu porque uma reta é um conjunto de pontos infinito. Pensou no trabalho, nas quatro paredes, na ausência do sem fim... e não teve vontade de ir. Pensou em ficar ali.
Tum, tum. Tum, tum. Tum, tum. Ouvia seu coração pulsar de par em par...
E num acesso de irresponsabilidade, e num amplo desejo de liberdade, mudou o caminho, atravessou a rua, desviou a rota. Escutou os passos do seu sapato sobre folhas secas. E cansou-se de olhar o mundo de salto alto.
De pés no chão, sentiu a terra entre os dedos. Abriu os braços. Tirou o vento para dançar. E ao som de pássaros, celebrou a vida.



3 comentários:

Erica Vittorazzi disse...

Que lindoooooooooooooooooo!! Eu faço isto, amo andar descalça!!


Beijos, amei o texto!

Araujo disse...

Que lindo e tão poético. Transformou os pés que nos sustentam e nos levam aonde queremos no personagem.

www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

Kuriozza disse...

Gosto da idéia apesar da mania de andar com os pés aprisionados na rotina. Coisas que precisam ser modificadas com o tempo, enfim. A salvação é a pequena caminhada na areia da praia, que revigora e dá energia. =)

Adorei o texto!
bj