terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Parte 1

Jogando conversa -
ou a moça, o romântico, o introspectivo e o fazendeiro

Esta é uma história com quatro personagens: a moça, o romântico, o introspectivo e o fazendeiro.
A moça era amiga dos três; mas se os três eram amigo entre si, a moça não sabia. O que os quatro tinham em comum: as palavras.
A moça adorava conversar com os três.
Às vezes trocava palavras com o romântico, e ficava toda derretida quando este lhe dedicava algum verso.
Outras vezes, ficava horas a fio com o introspectivo, viajando pelo interior de si. No começo, não entendia nada... Hoje já consegue entender algumas coisas... E mesmo não entendendo tudo sobre o que ele diz e sobre si mesma, a moça adorava estar com ele.
Em outras vezes, eram dedos, mãos de prosa com o fazendeiro. Conversavam sobre a vida, sobre o amor, sobre o cotidiano, sobre tanta coisa! A moça se sentia uma menina curiosa sempre que proseava com o fazendeiro.
Um dia, a moça resolveu juntar os três: o romântico, o introspectivo e o fazendeiro...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tic-tac


Tempo-tic, tempo-tac
Tempo, tempo, tic-tac

A flor se abriu, a menina levou.
O fruto caiu, a planta murchou.

O sol surgiu, e o horizonte tragou.
A noite subiu, e a lua assentou.

Tempo-tic, tempo-tac
Tempo, tempo, tic-tac

Do fogo de outrora, a brasa ficou.
A cinza de agora, o vento levou.

Adiante chora, aqui cantou.
O pranto foi embora, o riso voltou.

Tempo-tic, tempo-tac
Tempo, tempo, tic-tac

Na ida neném, na volta criança.
Hoje alguém, amanhã lembrança.

O que era já foi, o que é já vai indo.
O que virá será já, logo vem seguindo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Misterioso cavaleiro


Meu misterioso cavaleiro
Em teu cavalgar errante
Levai-me contigo, no lombo
Do teu cavalo Rocinante

Recostada em teu peito, seguirei
A vibrar com cada intento
E com alegria, beijar-te-ei ao vê-lo
Derrotar os moinhos de vento

As gotas da aurora virão nos despertar
O matiz vermelho do horizonte
Pintará os labirintos do nosso caminhar

E após cada aventura e desatino
Ao fim e ao cabo de todo dia vivido
O leito de amar será nosso destino

domingo, 19 de outubro de 2008

Banho de vento

Ela estava chateada. Andando com pressa. Pisando duro. Irritada. Ele sabia que isso a aborrecia muito... Aquele riso deliciosamente maldoso no canto da boca... Parecia ser proposital. Ela continuava caminhando. O rosto fechado. A expressão zangada. Para que insistir naquilo?

O tempo prometia chuva.

Rua deserta. Tempo nublado. Apenas os carros passavam extravasando as potências contidas pelos engarrafamentos de segunda à sexta. “Hoje é domingo - lembrou-se”.

Ainda estava longe, quando viu que o semáforo acabara de fechar. Não daria tempo. Uma longa espera até ele fechar de novo. Na rua deserta, pairava um leve clima de solidão e medo.

Sentiu o ar mais úmido. E o ar úmido pôs-se em movimento, chacoalhando as folhas dos arbustos ao longo da avenida. Não sentiu frio. Um arrepio gostoso percorreu-lhe o corpo.

O balanço do vento arrebatou dos arbustos algumas folhas meio secas, ansiosas por voar. E ela viu-se submersa, mergulhada nas minúsculas folhas que envolviam seu corpo, que roçavam seu rosto... Que encantavam seus olhos, brincando de rodopio com o vento, bailando no ar. E o vento quis trazer também consigo delicadas gotículas de chuva...

Estava totalmente envolvida, entre folhas, gotículas e vento... Que vontade de abrir os braços e voar! Que vontade de abrir os braços e sorrir! Quanto receio de parecer louca! Aos pouquinhos, a vontade de ser trespassada pelo vento foi vencendo o pudor de parecer louca, e ela, bem devagarzinho, abriu os braços e sorriu...

Lamentou a calça jeans. Desejou um vestido leve e solto que lhe permitisse sentir o frescor do vento em suas pernas. Agradeceu ao tempo por lhe ter dado um presente de outono em pleno verão.