Jogando conversa -
ou a moça, o romântico, o introspectivo e o fazendeiro
Esta é uma história com quatro personagens: a moça, o romântico, o introspectivo e o fazendeiro.
A moça era amiga dos três; mas se os três eram amigo entre si, a moça não sabia.O que os quatro tinham em comum: as palavras. A moça adorava conversar com os três.
Às vezes trocava palavras com o romântico, e ficava toda derretida quando este lhe dedicava algum verso. Outras vezes, ficava horas a fio com o introspectivo, viajando pelo interior de si. No começo, não entendia nada... Hoje já consegue entender algumas coisas... E mesmo não entendendo tudo sobre o que ele diz e sobre si mesma, a moça adorava estar com ele. Em outras vezes, eram dedos, mãos de prosa com o fazendeiro. Conversavam sobre a vida, sobre o amor, sobre o cotidiano, sobre tanta coisa! A moça se sentia uma menina curiosa sempre que proseava com o fazendeiro. Um dia, a moça resolveu juntar os três: o romântico, o introspectivo e o fazendeiro...
Ela estava chateada. Andando com pressa. Pisando duro. Irritada. Ele sabia que isso a aborrecia muito... Aquele riso deliciosamente maldoso no canto da boca... Parecia ser proposital. Ela continuava caminhando. O rosto fechado. A expressão zangada. Para que insistir naquilo?
O tempo prometia chuva.
Rua deserta. Tempo nublado. Apenas os carros passavam extravasando as potências contidas pelos engarrafamentos de segunda à sexta. “Hoje é domingo - lembrou-se”.
Ainda estava longe, quando viu que o semáforo acabara de fechar. Não daria tempo. Uma longa espera até ele fechar de novo. Na rua deserta, pairava um leve clima de solidão e medo.
Sentiu o ar mais úmido. E o ar úmido pôs-se em movimento, chacoalhando as folhas dos arbustos ao longo da avenida. Não sentiu frio. Um arrepio gostoso percorreu-lhe o corpo.
O balanço do vento arrebatou dos arbustos algumas folhas meio secas, ansiosas por voar. E ela viu-se submersa, mergulhada nas minúsculas folhas que envolviam seu corpo, que roçavam seu rosto... Que encantavam seus olhos, brincando de rodopio com o vento, bailando no ar. E o vento quis trazer também consigo delicadas gotículas de chuva...
Estava totalmente envolvida, entre folhas, gotículas e vento... Que vontade de abrir os braços e voar! Que vontade de abrir os braços e sorrir! Quanto receio de parecer louca! Aos pouquinhos, a vontade de ser trespassada pelo vento foi vencendo o pudor de parecer louca, e ela, bem devagarzinho, abriu os braços e sorriu...
Lamentou a calça jeans. Desejou um vestido leve e solto que lhe permitisse sentir o frescor do vento em suas pernas. Agradeceu ao tempo por lhe ter dado um presente de outono em pleno verão.