domingo, 7 de junho de 2009

Canções pela metade


Sabe, aquelas nossas canções?
Estão pela metade, assim como eu.
O violão está sem cordas
Esperando que você coloque, afinal, ele é seu.
Se eu gritasse, será que você me ouviria?
Eu podia fazer uma serenata
Com aquele violão sem cordas,
Mas você não me ensinou a tocar,
Não me ensinou a tocar...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Um pouquinho de Castro Alves...

Os três amores

I

Minh’alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!... a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
— Tu és Eleonora...

II

Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta.
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu... teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem... seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...
- E tu és Julieta...

III

Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha
Eu morro, se desfaço-te a mantilha
Tu és — Júlia, a Espanhola!...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Na bagunça dos arquivos...

Arrumando as minhas pastas/arquivos no computador (ou tentando arrumar, rs), encontrei um poeminha de um tempo em que já fui mais romântica...

Amo-te


Amo-te, em silêncio.
No cuidado velado,
No carinho delicado,
No verso dedicado.

Amo-te, sempre.
No som do vento a assobiar,
Nas noites sem luar,
Ao ver o sol beijar o mar.

Amo-te, bem baixinho.
No bilhete não enviado,
No olhar envergonhado,
No sorriso acanhado.

Amo-te, do meu jeito.
No caminhar errante,
Na dor dilacerante,
Na alegria de um instante.

Amo-te, por inteiro.
No beijo não dado,
No abraço adiado,
No afago desejado.

Amo-te, em segredo.
Na alegria por te ver,
Na dor de não te ter,
Na insistência em te querer.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Parte 3


Jogando conversa -
ou a moça, o romântico, o introspectivo e o fazendeiro


- Adorei o poema, mas... só você mesmo! Disse a moça, rindo e bebericando o vinho.
O romântico deu voz à interrogação estampada em sua testa.
- Por que dizes isto?
- Você é a única pessoa que eu conheço capaz de usar um objeto insignificante para fazer uma declaração de amor.
Ambos riram.
- Mas, agora, ele perdeu a insignificância. Tornou-se um elo que me une à minha amada.
- E o que ela achou do poema? Perguntou a moça, curiosamente.
- Não sei, senhorita.
- Não sabe?! Como assim? Ela não disse nada?
O romântico ajeitou-se na espreguiçadeira, contemplou a taça de vinho que tinha nas mãos, e respondeu, sem tirar os olhos da taça.
- Como poderia dizer, se não o leu?
A curiosidade da moça cedeu lugar a um leve desapontamento. O romântico prosseguiu.
- Não lho dei.
O desapontamento da moça tornou-se mais denso.
- Não? Qualquer mulher ficaria lisonjeada com aqueles versos.
- Decerto que sim... Talvez, algum dia, recitá-lo-ei à beira da marquise do quarto de dormir. Então poderei ouvir o que ela tem a dizer sobre o poema ou correr de um banho frio.
A moça olhava atentamente para o romântico.
- E por que não o fazes?
- E por que haveria de fazê-lo?
- Ainda que não lhe corresponda o afeto, ela gostará do poema. Além do mais, para quê um poema dedicado, se a musa não irá conhecê-lo?
O romântico levantou-se; pegou o chapéu sobre o piano. Entregou a taça vazia à moça e beijou-lhe a mão.
- Ao poema basta ser poema. A mim, me basta exprimir com intensidade o que sinto.
Pôs o chapéu na cabeça, e saiu.
A moça ficou imóvel por alguns instantes, pensando. Pela janela, viu o romântico cruzar o portão e ganhar a rua. Percorreu a sala com os olhos, até pousá-los no rolinho de papel. Ela pôs a taça a um canto e pegou o rolinho. Leu o poema mais uma vez.
A coleção de pedras e rolinhos estava aumentando.